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segunda-feira, 9 de abril de 2012

1ª Assembleia Geral dos Mestrandos do PPGCR/UEPA - 2012

 
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ
PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E DA EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
REPRESENTAÇÃO DISCENTE DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

CONVOCATÓRIA

            De acordo com a 10ª Reunião do Colegiado do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião (PPGCR), da Universidade do Estado do Pará (UEPA), convoco TODOS OS DISCENTES DO CURSO DE MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO para a ASSEMBLEIA GERAL que ocorrerá no dia 16 de abril de 2012 (segunda-feira), às 14h00, no bloco “Castelinho”, na sala de Multimídia (2º piso).
            Faz-se urgente e importante esta chamada para tratarmos das seguintes pautas:
1.    Eleição de um discente (da linha de pesquisa “Movimentos e Instituições Religiosas no Contexto Amazônico”) para ocupar a vaga no Colegiado do PPGCR-UEPA, pois, conforme o Regimento do Programa, é garantida 1 (uma) vaga para cada linha de pesquisa e, atualmente, apenas o aluno Marcel Franco da Silva é membro do Colegiado, representando a linha de pesquisa “Hermenêutica das Linguagens da Religião no Contexto Amazônico”;
2.    Escolher um aluno do PPGCR/UEPA (de qualquer linha de pesquisa) para ocupar a vaga de representante discente do Mestrado em Ciências da Religião no Conselho do Centro de Ciências Sociais e da Educação da UEPA (CONCEN/CCSE/UEPA), haja vista que temos uma vaga garantida pelo Estatuto desta Universidade;
3.    Outros assuntos que forem apresentados e, devidamente, inscritos na pauta da Assembleia.
 Diante das exposições, solicito aos docentes do PPGCR/UEPA para liberação dos seus discentes que, eventualmente, deverão ter orientação, estágio e/ou reunião de Grupo de Pesquisa no dia 16/04/2012.
Por fim, ressalto a importância dessa reunião, levando em consideração que todos firmaram compromisso com este Programa, com DEDICAÇÃO EXCLUSIVA.

Belém/PA, 09 de Abril de 2012


Marcel Franco da Silva
Colegiado Discente do PPGCR/CCSE/UEPA
Portaria n.º 049-2011 – CCSE/UEPA

domingo, 2 de outubro de 2011

Resolução para o Exame de Qualificação Discente do PPGCR-UEPA

Texto integral
  

CHAMADA PARA CONCESSÃO DE BOLSA DA CAPES‏ ATÉ O DIA DE OUTUBRO DE 2011

Prezados/as alunos e alunas do PPGCR-UEPA,

O PPGCR-UEPA torna pública a CHAMADA para a solicitação e concessão de 2 (duas) bolsas de mestrado da CAPES. Os/as interessados/das deverão proceder da seguinte forma:

  1. Encaminhar ao Mestrado em Ciências da Religião a solicitação de bolsa através de requerimento protocolado junto ao Protocolo Central da UEPA, localizado na Reitoria;
  2. Anexar ao pedido: cópia do projeto de pesquisa desenvolvido junto ao PPGCR;
  3. Declaração de que aceita dedicar-se integralmente as atividades do programa;
  4. Declaração de que não possui nenhum vínculo empregatício (público ou privado);
  5. Declaração de que não se encontra aposentado ou em situação similar;
  6. Declaração de que não usufrui de auxílios, bolsas ou similares de agências de fomentos à pesquisa nacional, estrangeira ou da UEPA;
  7. Declaração de que conhece o inteiro teor da Resolução Nº 01/2011, do PPGCR/UEPA;
  8. Carta de recomendação do orientador à concessão da bolsa.

As solicitações deverão ser encaminhadas até o dia 06/10/2011, às 14h, próxima quinta-feira. Não serão consideradas as solicitações encaminhadas fora do prazo. O resultado será divulgado no dia 11/10. Segue, em anexo a esta mensagem, cópia do Resolução Nº 01/2011, do PPGCR-UEPA.

OBS.: O Protocolo Central da UEPA funciona diariamente até às 14h.

Atenciosamente,

Prof. Dr. Douglas Rodrigues da Conceição
Coordenador do PPGCR-UEPA
Portaria n. 049-2011 - CCSE-UEPA



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Resolução para concessão das bolsas aos discentes do PPGCR-UEPA
(Texto integral)




quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Artigo sobre experiência docente e abordagens sobre o campo religioso


TRADIÇÕES RELIGIOSAS E ATITUDES ANTI-CIENTÍFICAS:
REFLEXÕES SOBRE UMA EXPERIÊNCIA DOCENTE*

RELIGIOUS TRADITIONS AND ANTI-SCIENTIFIC ATTITUDES:
REFLECTIONS ON A TEACHING EXPERIENCE

LAS TRADICIONES RELIGIOSAS Y LA ACTITUD ANTI-CIENTÍFICA:
REFLEXIONES SOBRE UNA EXPERIENCIA EN LA ENSEÑANZA


Saulo Baptista
Doutor em Ciências da Religião,
Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião
Universidade do Estado do Pará
saulo.baptista@gmail.com

Resumo

O presente artigo se inspira em experiências de ensino-aprendizagem com alunos da Licenciatura Plena em Ciências da Religião da Universidade do Estado do Pará. O autor parte da premissa que não se pode deixar em segundo plano a experiência religiosa dos atores nessa aventura que é produzir Ciências da Religião, mas também não se pode vivê-la abandonando pressupostos, métodos e técnicas da produção científica. A relação do aluno com esses postulados depende da bagagem que ele traz em sua herança religiosa, quando ingressa no curso, e que reformula durante sua vida acadêmica. Nesse contexto, professores e alunos são desafiados a lidarem com a diversidade de saberes e o diálogo inter-religioso.

Palavras-chave: tradição religiosa; ciências da religião; diversidade de saberes; fundamentalismo; diálogo inter-religioso.

Abstract

This article draws on experiences of teaching and learning with students of Full Degree in Religious Sciences at the State University of Pará. The author assumes that you cannot leave in the background of the religious experience that players of this adventure whose goal is to produce Science of Religion, but you cannot live it abandoning assumptions, methods and techniques of scientific production. The relationship of the student with these postulates depends on the baggage he brings his religious heritage, when he entered the course. In this context, teachers and students are challenged to cope with the diversity of knowledge and inter-religious dialogue.

Keywords: Religious tradition; Religious Science; Diversity of knowledge; Fundamentalism; Inter-religious Dialogue.

Resumen

Este artículo se basa en las experiencias de enseñanza y aprendizaje con los estudiantes de licencia plena en Ciencias de la Religión en la Universidad del Estado de Pará. El autor asume que no se puede  dejar en un segundo plano la experiencia religiosa de los participantes de esta aventura, que es producir conocimientos en Ciencias de la Religión, pero no se pude trabajar abandonando hipótesis, métodos y técnicas de la producción científica. La relación del alumno con estos supuestos depende del bagaje que aporta su herencia religiosa, cuando entró en el curso. En este contexto, los docentes y los estudiantes tienen el reto de hacer frente a la diversidad de conocimientos y el diálogo inter-religioso.

Palabras-clave: La tradicion religiosa; La ciencia de la religión; La diversidad de conocimientos; El fundamentalismo; El diálogo interreligioso.

A apresentação do problema

            A prática docente com alunos do curso de Licenciatura Plena em Ciências da Religião da Universidade do Estado do Pará, desde 2009, abrangendo estudantes de graduação que ingressaram a partir de 2006 e duas turmas que concluíram em 2009 e 2010, permite que façamos algumas reflexões acerca da relação entre experiência religiosa e atitudes face ao estudo científico do fenômeno religioso na sociedade.
            Mais especificamente, percebe-se a influência da formação religiosa quando o aluno é confrontado com princípios e pressupostos da produção científica, em aulas e tarefas avaliativas de disciplinas como Metodologia Científica, Projeto de Pesquisa e Trabalho de Conclusão de Curso – neste caso, um acompanhamento semanal, feito para o bom andamento da pesquisa e a elaboração da monografia respectiva, ou seja, o mencionado TCC.
            A disciplina Metodologia Científica é ministrada no início da graduação e permite observar, de forma mais aguda, como o aluno lida com essa relação entre o saber religioso e o saber científico. Ao longo do curso, quando esse aluno se defronta com disciplinas que oferecem diferentes abordagens para o fenômeno religioso, tais como, Filosofia, Psicologia, Sociologia e Antropologia, para não ir mais longe, as reações indicam uma rica diversidade de percepções, de aluno para aluno, e guardam alguma relação com a bagagem de experiência religiosa que cada um carrega ou carregava, quando ingressou no curso, e como lidou com essa herança, durante o processo de aprendizagem de novos conteúdos acerca do universo religioso e sua diversidade.
            Como algo trivial na experiência humana, essas variações também guardam relação com a trajetória de vida do próprio aluno. Alguns sinalizam criar uma barreira entre o que creem e os conteúdos das disciplinas do curso. A “solução” que esses encontram parece ser a de construir departamentos estanques, sendo um para a sua fé e outro para a sua aventura acadêmica. Alguns vão mais longe e refutam o saber acadêmico, fazendo uma opção por permanecer, exclusivamente, escorados no saber religioso que receberam e que os alimenta no “mundo da vida”. Neste caso, eles percorrem as disciplinas do curso, mas internalizam insuficientemente uma abordagem crítica do fenômeno religioso.
            Temos observado que este tipo de reação é mais comum, mas não exclusivamente, em alunos que vêm de tradições pentecostais e adventistas. Não obstante, seria imprudente e leviano generalizar essa conclusão, pois há variações de comportamento entre pentecostais de diferentes confissões e entre seguidores do movimento adventista, que também não é um corpo monolítico de doutrinas, como parece ser para quem não está afeito ao seu ambiente eclesial.
            Em nossa experiência docente com esses alunos, os que reagem com mais dificuldade à aceitação das regras do jogo científico são originários das Assembleias de Deus, enquanto que os provenientes da Igreja Quadrangular são relativamente menos arredios ao saber científico. Em ambos os conjuntos, porém, as atitudes variam bastante. Curiosamente, não se verifica muita incidência desses comportamentos de rejeição a abordagens científicas do fenômeno religioso em alunos de religiões afro-brasileiras, católicos, judeus, espíritas e protestantes de tradição reformada. Todavia, fazemos ressalva que esta conclusão genérica é apenas um ponto de partida para as digressões que serão desenvolvidas na continuação deste artigo.
            Tipos de reação mais comuns se referem à dificuldade de aceitarem a interpretação de textos sagrados antigos como literatura mitológica, no caso, principalmente, dos escritos iniciais do livro de Gênesis. A abordagem pentecostal e de outros cristãos, que adotam uma hermenêutica fundamentalista, trata esses textos como descrição fiel dos fatos, refutando, portanto, teorias outras sobre a formação do universo, origem das espécies de seres vivos e das culturas e línguas. Ou seja, não há um reconhecimento acerca da especificidade e aplicabilidade de saberes, em seus campos respectivos: religioso, filosófico, científico e artístico. Querem manter o saber popular do senso comum no mesmo patamar do saber elaborado nos espaços acadêmicos, rejeitando este como antagônico à tradição religiosa que trouxeram.1 A propósito, é importante trazer para esta reflexão o que Boaventura de Sousa Santos (2010, p. 89-90) escreve:

[O senso comum é] o menor denominador comum daquilo em que um grupo ou um povo coletivamente acredita [...].  O senso comum é o modo como os grupos ou classes subordinadas vivem a sua subordinação; [...] essa vivência, [...] longe de ser meramente acomodatícia, contém sentidos de resistência que, dadas as condições, podem desenvolver-se e transformar-se em armas de luta (SANTOS, 1989, p. 35).

O senso comum faz coincidir causa e intenção; subjaz-lhe uma visão do mundo assente na ação e no princípio da criatividade e das responsabilidades individuais. O senso comum é prático e pragmático; reproduz-se colado às trajetórias e às experiências de vida de um dado grupo social e nessa correspondência se afirma de confiança e dá segurança. O senso comum é transparente e evidente; desconfia da opacidade dos objetos tecnológicos e do esoterismo do conhecimento em nome do princípio da igualdade do acesso ao discurso, à competência cognitiva e à competência linguística. O senso comum é superficial porque desdenha das estruturas que estão para além da consciência, mas, por isso mesmo, é exímio em captar a profundidade horizontal das relações conscientes entre pessoas e entre pessoas e coisas. O senso comum é indisciplinar e imetódico; não resulta de uma prática especificamente orientada para produzi-lo; reproduz-se espontaneamente no suceder quotidiano da vida. Por último, o senso comum é retórico e metafórico; não ensina, persuade.

            Um tipo de reação desses grupos de alunos está ligado a preconceitos contra outras experiências religiosas, preconceitos esses elevados à condição de conteúdos doutrinários, decorrentes da hermenêutica que adotam no exame de alguns textos bíblicos. Um exemplo bem comum: ao tratar de êxtase e transe, os pentecostais rotulam o que acontece em reuniões do espiritismo kardecista e nos terreiros de religiões afro-brasileiras, como experiências de fonte demoníaca, enquanto suas práticas de glossolalia eles as tratam como evidências do batismo com o Espírito Santo. Abordagens desses fenômenos, com recursos da Psicologia da Religião, por exemplo, são rejeitadas ou toleradas com suspeita. A possibilidade de comparações e pesquisas paralelas não é apreciada, por parte desses alunos. Até mesmo a simples visita a um terreiro, como prática elementar de atividade acadêmica, é repelida com veemência. Confirma-se, nessa atitude, a discriminação contra as religiões de tradição africana.
            Uma primeira aproximação possível para explicar o porquê dessas reações entre o religioso e o científico seria averiguar as características de cada tradição religiosa. Na extensão deste texto não será possível desenvolver um estudo tão amplo, porém destacaremos aspectos que julgamos essenciais. Nesta direção, verifica-se que pentecostais e adventistas têm como base de fé uma interpretação da Bíblia, que chamaremos, a priori, fundamentalista, enquanto que os alunos de outras confissões não estão apegados, tão diretamente, a uma fé cujo referencial são os textos bíblicos, lidos e assimilados, de forma quase literal e descontextualizada. Alunos católicos, que também têm a Bíblia como texto referencial, não se chocam tanto com as discussões científicas. Talvez porque o texto sagrado chega a eles sob mediação do magistério da igreja e é apenas um dos componentes formuladores da sua fé, não sendo exclusivo nem tendo o mesmo peso, tão decisivo na formação religiosa, como ocorre entre os grupos pentecostais e adventistas. Os protestantes de tradição reformada são pastoreados por profissionais que vêm de ambientes mais afeitos a discussões teológicas de cunho acadêmico, ou, pelo menos, estão cientes que há diversas formas de abordar a realidade e que os saberes se distinguem, em origens, regras e perspectivas diferentes, mas podem conviver guardados seus limites e aplicações aos respectivos campos. Reconhecem, portanto, que esses saberes não podem nem devem ser apresentados como excludentes ou exclusivos.
            Um segundo modo de abordagem, para explicar essas reações, se refere ao estudo da relação entre o objeto a ser conhecido e o instrumental a ser aplicado. Para o pentecostal e o adventista, a Bíblia contém suficientes informações que lhes permitem analisar a realidade, seja no que tange ao universo, à natureza, suas origens, funcionamento e destino, seja no que tange às sociedades, em seu passado, presente e futuro. Tudo está presente nos tesouros escondidos da Bíblia. Esses grupos orientam-se por uma filosofia da história, que oferece uma interpretação fechada para o sentido da experiência humana.
            No caso dos pentecostais, eles tomaram de empréstimo a teoria das dispensações de Cyrus Ingersol Scofield. Trata-se de uma filosofia da história que estrutura toda a existência da humanidade nas chamadas dispensações, ou grandes períodos em que se interpreta a presença humana na face da Terra. Essa é a chave de interpretação adotada por setores majoritários de pentecostais e evangélicos brasileiros para a leitura da Bíblia2. Conforme escrevemos em outro trabalho (BAPTISTA, 2000, p. 44),

O dispensacionalismo [...] concebe a história da humanidade estruturada em sete estágios, chamados dispensações. As dispensações são revelações progressivas de Deus dirigidas ao homem, às vezes a toda a humanidade, às vezes para Israel, às vezes para a Igreja. Cada dispensação serve para colocar o homem sob uma específica regra de conduta. Os estágios são os seguintes:
1ª dispensação: O homem em estado de inocência - começa em Gênesis 1: 28, com a criação do homem e vai até a sua queda, devida à desobediência do primeiro casal.
2ª dispensação: O homem em estado de consciência ou de responsabilidade moral – iniciando no versículo Gênesis 3: 7.
3ª dispensação: O governo humano, ou o homem com autoridade sobre a terra – a partir de Gênesis 8: 15.
4ª dispensação: O homem sob a promessa de Deus - Gênesis 12: 1.
5ª dispensação: O homem sob a lei - desde o versículo Êxodo 19: l.
6ª dispensação: O homem sob a graça. É a era da igreja, na qual nos encontramos, agora. A partir de Atos 2: 1.
7ª dispensação: O homem sob o reino pessoal de Cristo - a partir da volta de Cristo, que deverá acontecer segundo Apocalipse 20: 4.

            Na interpretação de Bertone de Oliveira Sousa (2010, p. 247), “a leitura da Bíblia promovida pela Assembleia de Deus no Brasil se caracteriza pelo fundamentalismo e rejeição de aspectos da modernidade que a instituição sente ameaçarem sua integridade doutrinária”; a construção da identidade coletiva dessa Igreja nega legitimidade ao discurso do outro, “rejeita o diálogo inter-religioso e assume uma postura combativa a toda teologia liberal e visão de mundo secular”.
            Após analisar textos de revistas da Casa Publicadora das Assembleias de Deus, destinados a classes de jovens e adultos da Escola Bíblica Dominical, Sousa concluiu que essa denominação “abraçou o fundamentalismo”, para “reconstituir uma fé original e apoiada numa interpretação literal da Bíblia”. Ele também considera que essa construção identitária é paradoxal, visto que:

Ao mesmo tempo em que concede aos indivíduos melhoria da auto-estima e autonomia sobre antigos vícios, dando-lhe liberdade de pronunciamento nos cultos e igualdade perante os outros irmãos na fé, também os submete ao controle de uma rígida doutrina, elaborada e imposta por um corpo de teólogos especializados e os conduz a uma concepção de mundo fechada, centrada nos valores da comunidade religiosa, que, por considerarem ser de inspiração bíblica, são considerados como os únicos aceitáveis. (SOUSA, 2010, p. 247).

            Esse tipo de ética cristã, que contém ingredientes comuns a outros grupos religiosos, tais como o combate ao aborto, homossexualismo, eutanásia, materialismo, ateísmo, secularismo, seja o que esses rótulos signifiquem, expressam os já citados “sentidos de resistência que, dadas as condições, podem desenvolver-se e transformar-se em armas de luta”, instrumentos de reação às ameaças da crise de modernidade em que vivemos.
            Em março de 2005, durante as discussões do projeto de lei sobre biossegurança (PL n. 2401/2003), que abrange modificações genéticas em vegetais e experimentos com embriões humanos, a socióloga Maria das Dores Campos Machado registrou momentos de um culto da Frente Parlamentar Evangélica no plenário n. 2 da Ala Antônio Mariz da Câmara dos Deputados, que permitem observar discursos de lideranças do campo pentecostal e neopentecostal, em prédicas e orações, relacionadas, diretamente, com a utilização das ciências:

Havia dezoito deputados, dois prefeitos e quatro dezenas de funcionários acompanhando a celebração animada por um coro e o acordeão do pastor da Assembléia de Deus e deputado federal Raimundo Santos (PL/PA). O culto se iniciou com as palavras dos deputados Pedro Ribeiro (PMDB/CE), Amarildo Martins
Silva (PMDB ou PSC/TO) e Zelinda Jarske (PFL/BA). Os dois primeiros, apresentados também como pastores da Assembléia de Deus, concentraram suas falas no projeto de biossegurança a ser votado na parte da tarde e associaram as investigações genéticas às ações demoníacas e à prática do aborto. Amarildo Silva pediu a intervenção divina clamando para que “Jesus retire do projeto a proposta da pesquisa com células-tronco, uma coisa do maligno e porta aberta para a aprovação do aborto no Brasil”. Já Pedro Ribeiro argumentou “que não se pode dar vida tirando vidas”. Na mesma direção, a deputada Zelinda fez a seguinte oração: “Senhor estamos aqui para fazer pronunciamentos, elaborar e votar leis, mas estamos aqui principalmente para honrar o seu nome. Estamos aqui como seus representantes numa missão temporária, mas estamos aqui para fazer a sua vontade. Portanto, iluminai nossos colegas para que votem contra a proposta de pesquisa com a célula-tronco.”
Um quarto deputado, o Pastor assembleiano Hidecazu Takayama (PMDB/PR), assumiu o comando do culto e numa pregação de quarenta minutos lembrou aos ouvintes: “Estamos no mundo, mas não somos desse mundo e estamos reunidos aqui hoje para lembrar disso. Vários parlamentares esquecem disso e se perdem nas disputas partidárias e se escondem nas comissões. Dizem que não tem tempo de reunir conosco para orar, mas na realidade eles estão mortos, insensíveis e sem emoção. Esqueceram que nosso compromisso principal é com Jesus. E que é a vontade dele que deve nos guiar aqui. Eu também sou absolutamente contra essa proposta de que falavam nossos colegas e peço a todos os deputados presentes que digam ‘não’ hoje no plenário.”
Dos quase sessenta deputados evangélicos com mandato na 52ª legislatura, dois terços votaram contra o projeto em questão. O restante se absteve ou seguiu a orientação do Conselho de Bispos da Igreja Universal do Reino de Deus para que votassem com o governo. (CAMPOS, 2007, p. 22-23)

            O que mais causou nosso estranhamento não foi a recusa radical à lei da biossegurança, atitude compartilhada por outras tradições religiosas, mas a forma como as lideranças pentecostais em destaque demonizaram tudo aquilo que contrariava suas convicções.3 A convivência com diferentes líderes e liderados desse campo religioso tem-nos permitido afirmar que a demonização do diferente não é coisa estranha ao modo pentecostal de interpretar a sociedade.
            No caso dos adventistas, suas bases doutrinárias originaram-se dos escritos e Guilherme Miller, “que confundia as concepções do apocalipcismo com as concepções do profetismo”, segundo Edegard Silva Pereira (2005)4. Desse mesmo Miller, um leigo, fazendeiro e de confissão batista, “a IASD [Igreja Adventista do Sétimo Dia] herdou a ênfase no regresso de Cristo e a interpretação historicista do livro de Daniel, que os teólogos adventistas tornaram extensiva ao Apocalipse, sem estabelecer a necessária diferença entre os apocalipses judaico e cristão” (SILVA PEREIRA, 2005). Outra fonte doutrinária do movimento adventista é a vertente vulgar do calvinismo norte-americano, com “suas características principais: autoritária, legalista, moralista, lógica e fundada na interpretação literal da Bíblia” (SILVA PEREIRA, 2005). Completando esse conjunto de fontes, registra-se a contribuição mais conhecida e prezada pelos adventistas, que são as obras de Ellen G. White. Para Silva Pereira (2005), “as virtudes e a maior parte dos princípios religiosos defendidos por [...] White em seus escritos estão em sintonia com essas fontes. E o que fazem os teólogos adventistas é manter a confissão eclesiástica nos mesmos moldes usados pelos pioneiros”.
            Dentre as críticas que Silva Pereira (2004)5  faz ao sistema adventista, destacam-se as seguintes:

a) A mensagem adventista tem certas características que contribuem para a despolitização: promove engajamentos só do tipo individual e só destaca aspectos individuais da fé. As virtudes cristãs são apresentadas de forma abstrata — nunca se diz o que elas significam aqui e agora [6]. O cunho apocalíptico da mensagem enfatiza que o mundo é mau, está ficando cada vez pior e em breve será destruído por Deus. Remete os fiéis a um “mundo do outro mundo” que não se sabe como é nem onde está. Os adventistas encontram-se numa condição contraditória: têm de viver neste mundo, mas sua fé os aliena da realidade. Não é de se estranhar que muitos se sintam perdidos e encontrem “segurança” no isolamento, em guetos formados, geralmente, em torno de instituições educacionais adventistas.
b) A teologia adventista é uma teologia clássica, tradicional, marcada pelo idealismo pela incapacidade de perceber os dados positivos dos fatos e situações sociais. Não consegue tratar dos problemas políticos a não ser sob a forma de questões vinculadas com a ética. Mas, a perspectiva ética, por causa de sua natureza abstrata, conduz necessariamente a reflexão teológica ao moralismo. Ou seja, faz a teologia deformar-se num idealismo ético.

            Podemos juntar essas duas vertentes religiosas pelo que apresentam em comum: uma atitude fechada quanto ao conjunto de crenças que defendem, o qual lhes serve de manual de vida, regras do que é certo e errado, em todas as dimensões de suas existências, nos espaços privados e públicos. Esse tipo de teologia é refratário a outras abordagens teológicas. Em sua tese de doutorado, Antonio Gouvêa de Mendonça (1984, p. 141) elencou atitudes que identificavam, em geral, o crente fundamentalista:

a) Gosto exagerado pelas profecias, com o abandono relativo dos demais quadros básicos da fé cristã;
b) Expectação permanente da volta de Jesus Cristo;
c) Insistência em sinais;
d) Insistência em quadros referenciais de doutrinas que possam transmitir segurança, ou melhor, respeito pela reta doutrina (dogmatismo);
e) Desconfiança para com a ciência e toda forma de saber que não tenha referencial bíblico;
f) Certeza de que os que não compartilham com seus pontos de vista religiosos não são absolutamente cristãos. (grifo nosso).

            Em certo sentido, excluindo a especificidade de ter como fundamento a Bíblia e uma interpretação particular dos seus conteúdos, este tipo de comportamento, ou seja, explicar a natureza e a sociedade, em toda a extensão temporal ou atemporal, a partir de sua cosmovisão, seja o que isto queira indicar, é algo comum a muitas religiões. Isto é feito através das mitologias, como é o caso do hinduísmo, das teogonias gregas, helênicas e romanas, das tradições orais de matrizes africanas e do próprio judaísmo e cristianismo, em interpretações mais condizentes com suas formações históricas. Também é comum a certos sistemas de crença oferecer explicações da totalidade da vida mediante um construto que se utiliza de leis como o carma, metempsicoses e reencarnações, com ou sem necessidade de recorrer a mitologias, como se verifica em diversas religiões orientais e no espiritismo kardecista, respectivamente. A propósito, Émile Durkheim (1977, p. 2) descreve o ser religioso e sua natureza, da seguinte maneira:

Vê-se frequentemente a religião como uma espécie de especulação sobre um objeto determinado: acredita-se que ela consiste num sistema de idéias, exprimindo, mais ou menos adequadamente, um sistema de coisas. Mas esta característica da religião não é a ação de forças sui generis, que elevam o indivíduo acima dele mesmo, que o transportam para um meio distinto daquele no qual transcorre sua existência profana, e que o fazem viver uma vida muito diferente, mais elevada e mais intensa. O crente não é somente um homem que vê, que conhece coisas que o descrente ignora: é um homem que pode mais. Os fiéis podem conceber erroneamente os poderes que se atribuem, o sentido no qual ele se exerce. Mas este poder, nele mesmo, não é ilusório. É ele que permite à humanidade viver.

            Quando a religião não se preocupa tanto com explicações sobre origem e destino do universo, ou o faz assumindo que suas explicações são, de fato, mitos, seus adeptos não manifestam tantas reações às regras do método científico, em suas diferentes possibilidades. Quando a religião tem a pretensão de explicar essas questões a partir de um texto revelado e seus adeptos adotam quase literalmente essas explicações, temos, nesses ingredientes, a formação de uma barreira de compreensão aos estudos científicos. No conjunto de alunos pentecostais e adventistas, há dificuldade de percepção das diferenças que os saberes e experiências oferecem. Afinal, os leques de saberes disponíveis são corpos de busca de compreensão da realidade com perspectivas bem distintas, tais como: o senso comum, os saberes filosófico e teológico, as tradições religiosas, as artes e o conhecimento produzido pelas ciências da natureza e da condição humana em sociedade.

O que fazer diante desse desafio?

            O problema do ensino-aprendizagem das Ciências da Religião nesse contexto das diferentes tradições religiosas dos alunos de Licenciatura Plena da Universidade do Estado do Pará está apresentado e configura um grande desafio, principalmente para o corpo docente do curso, visto que não se pretende, durante o itinerário acadêmico a ser percorrido pelos alunos, ignorar ou colocar em plano secundário os conteúdos e valores da experiência religiosa que cada um deles traz e cultiva, até porque seria agressivo e criminoso, se não inútil, tentar invadir espaço tão sagrado como é a vivência de fé que cada ser humano possui. Não obstante, também persiste a consciência que não será possível ministrar os conteúdos das Ciências da Religião e muito menos será viável produzir conhecimentos nessa área se forem abandonados pressupostos, princípios, métodos e técnicas que definem o campo acadêmico. No quadro apresentado até aqui, é pertinente enfrentar a questão, tão popularizada como título de uma obra política: “o que fazer?” (LÊNIN, 2010).
            Em primeiro lugar, supõe-se que merece atenção especial trabalhar a dimensão dos saberes, apontando sua diversidade e especificidade, além de indicar que o conhecimento humano não pode ser abarcado ou limitado por uma abordagem apenas, por mais sedutora e convincente que ela possa parecer. São importantes, neste sentido, as orientações de Fernando Hernández (1998, p. 33):

O educador, de maneira geral, deve problematizar o conhecimento junto aos estudantes, e também as disciplinas, os conteúdos, os significados e os significantes. Isso implica no desenvolvimento de um esforço político, autodisciplina
e consciência crítica que lhe permita:
1. questionar toda forma de pensamento único, o que significa introduzir a suspeita sobre as representações da realidade baseadas em verdades estáveis e objetivas.
2. reconhecer, diante de qualquer fenômeno, [...] as versões da realidade que representam e as representações que tratam de influir em e desde elas.
3. incorporar uma visão crítica que leve a perguntar-se a quem beneficia essa visão dos fatos e a quem marginaliza...
4. introduzir, diante do estudo de qualquer fenômeno, opiniões diferenciadas, de maneira que o aluno comprove que a realidade se constrói desde pontos de vista diferentes, e que alguns se impõem frente a outros [não] pela força dos argumentos, e sim pelo poder de quem os estabelece [...].

            Costumam-se identificar diversos tipos de conhecimento, tais como: o intuitivo, o mítico, o saber obtido pelo senso comum ou conhecimento popular; o conhecimento religioso e o teológico; o filosófico; o artístico, o científico e o técnico. Algumas características desses saberes serão comentadas a seguir.
            A base de todo conhecimento veio do senso comum, da relação do homemcom a natureza e com seus semelhantes no convívio social. Trata-se de um saber informal, que se produz a partir de experiências do cotidiano, em forma de costumes, hábitos, tradições, valores e interditos de uma sociedade... Além de heterogêneo, o senso comum varia de cultura para cultura. As características dele, segundo Ander-Egg (1978), são: a superficialidade, o contentar-se com as aparências, tratar-se de um conhecimento subjetivo, assistemático e acrítico. Da nossa parte, cremos que essas qualidades podem apresentar-se com diferentes graus de complexidade, pois, intuitivamente, cada pessoa tem seu próprio método de observação da realidade e nem sempre se coloca de forma acrítica diante dos fatos que observa. Não obstante, o grau de sistematização e crítica aplicáveis a esse tipo de conhecimento permanece distante daquele que é reconhecido como conhecimento científico. O senso comum também é susceptível de valorações e comporta juízos de valor, em função dos ânimos e circunstâncias vivenciadas pelo produtor desse modo de conhecimento.
            O conhecimento mítico nasce de representações sobrenaturais que se propõem a dar sentido a situações e coisas, fora da racionalidade científica e filosófica. É um saber constituído de crenças fantásticas e narrativas inverossímeis, que utiliza linguagem simbólica e alimenta o imaginário social. Suas fontes, geralmente, estão perdidas no passado remoto de civilizações antigas.
            O saber religioso visa compreender o homem e o universo a partir da fé e da revelação, sendo esta resultante de uma luz divina, transcendente, vinda do exterior ou despertada interiormente, conforme as diferentes tradições doutrinárias. As religiões lidam com o sobrenatural, suas verdades são imutáveis, razão por que não costumam ou não podem ser questionadas. Trata-se, geralmente, de um saber antigo, mas que se renova em diferentes manifestações; recorre a mitos para explicar a gênese do universo, de todos os seres naturais e sobrenaturais, a origem da vida e a inevitabilidade da morte; indica a necessidade de desencarnações e reencarnações, transformações e metempsicoses, e explica a origem do bem e do mal, bem como verdades correlatas. Lida com angústias, esperanças, medos, vazios existenciais e tudo que diga respeito à existência, em seus dilemas e perplexidades. O saber religioso é um saber não experimental, não verificável nem refutável, dentro de seu campo de aplicação, porque todo ele abarca matérias de fé. Tem como premissa o divino, fonte de toda a verdade e a causa primeira de todas as coisas. O conhecimento teológico baseia-se na fé e no uso da razão. É produzido de forma dedutiva, portanto, parte do universal e de um conjunto de verdades para explicar o particular. Trata-se de um saber que estuda textos e tradições sagradas.
            O conhecimento filosófico lida com a racionalidade, enunciados logicamente encadeados, conceitos, axiomas e hipóteses. Busca a verdade, o porquê das coisas. A filosofia trabalha com a experiência humana, mas não com a experimentação material, como é comum em diversos ramos da ciência. Por este motivo, ela discute os problemas da natureza e sociedade à luz da pura razão humana. Trata-se de um conhecimento sistemático, com rigor lógico, valorativo e sempre aberto a novas contribuições. Discute questões da ética e da moral humanas.
            A ciência tem como ponto de partida a observação e prossegue mediante a formulação de hipóteses, experimentação, investigação e demonstração, segundo teorias e métodos próprios, para desvendar causas e efeitos, classificar fenômenos, estabelecer leis, confirmar, infirmar ou refazer hipóteses. É típico de alguns ramos da ciência elaborar experimentos demonstráveis e susceptíveis de serem repetidos em laboratório, mas também são formuladas e executadas experiências puramente mentais. O saber científico trata-se de um conhecimento sistemático que não recorre a hipóteses sobrenaturais. É um conhecimento sempre conjectural e sujeito a refutações, com vistas a ser superado e reformulado. Uma teoria científica resulta de uma generalização provisória de conhecimentos sistematizados, até que nova percepção da realidade, não sendo contemplada pelo enunciado da teoria em vigor, exija sua reformulação ou substituição total, a partir de um novo paradigma que se impõe. O conhecimento técnico é derivado da produção científica. Trata-se de um saber instrumental, especializado, que busca a aplicação prática e operacionalização da produção científica.
            O conhecimento artístico lida com abstrações, gostos e sentimentos, que produzem refinamentos no espírito humano, sendo este exercitado pela estética. Segundo uma fórmula clássica, “a arte é a natureza vista através de um temperamento” (Zola e Flaubert). Atribui-se a Francis Bacon a afirmação que “o principal trabalho do artista é aprofundar o mistério”.
            A apresentação dessa gama variada de saberes, com suas características e finalidades distintas, tem ajudado alunos e professores a se situarem e compreenderem que a experiência de fé tem seu lugar num universo de infinitas possibilidades de busca de entendimento entre humanos, tão semelhantes e tão diversos em suas experiências existenciais.
            Em segundo lugar, estamos convencidos de que a prática do diálogo inter-religioso constitui-se em estratégia poderosa para arejar o processo de ensino-pesquisa-extensão, com efeitos benéficos sobre nossos pensamentos e ações no cotidiano. O curso de Ciências da Religião da UEPA estreitou laços de parceria com o Comitê Interreligioso de Belém e ambas as instituições têm colhido lições edificantes, transitando da práxis para a teoria e vice-versa,
construindo, dessa maneira, um círculo virtuoso de aprendizagem.
            O discurso confessional trata a verdade religiosa como um absoluto. Em se mantendo esse campo fechado, teremos mundos estanques, isolados, que, nas melhores hipóteses, se ignorarão ou se excluirão e, nas piores, se agredirão até o limite de se destruírem mutuamente. Nas palavras do professor Sylvio Fausto Gil Filho (2005), “há necessidade da construção de um discurso que realize a ponte entre a verdade religiosa confessional absoluta e a realidade social do pluralismo religioso. Sob este aspecto a realidade religiosa plural questiona constantemente as teologias”. Ele cita Raimon Panikkar7 (1999, p. 5-11 apud GIL FILHO, 2005), que “reconhece a questão da pluralidade religiosa como impactante do pensamento teológico e especulativo contemporâneo”, oferecendo cinco formas possíveis de encarar a religião do outro:

(i) Exclusivismo: apenas uma religião é verdadeira. As outras são apenas, na melhor das hipóteses, aproximações.
(ii) Inclusivismo: todas as religiões participam de uma mesma essência e em última análise suas aproximações recaem em uma mesma verdade.
(iii) Paralelismo: toda religião é verdadeira na perspectiva de que é a verdade para os seus adeptos.
(iv) Interpenetração: o conhecimento da religião do outro pode complementar a minha própria convicção religiosa e vice-versa.
(v) Pluralismo: a verdade é plural e como tal as religiões apresentam perspectivas únicas e circunstanciais em múltiplas aproximações.

            Não temos como evitar a multiplicidade de comportamentos em uma comunidade aberta como é e deve ser uma instituição universitária, mas fica patente que o exclusivismo deve ser evitado. As outras formas de relacionamento são aceitáveis em diferentes graus e produzem resultados distintos no diálogo inter-religioso e na questão da prática religiosa frente ao aprendizado das Ciências da Religião, que é o foco principal destas reflexões.
            Em nossa experiência docente, a ênfase na diversidade de saberes e a valorização da multifacetada condição religiosa humana vêm motivando professores e alunos para uma abertura ao novo e ao diferente. É prazeroso perceber que somos todos membros de uma comunidade aprendiz, compartilhando heranças de diferentes culturas religiosas.

Notas

* Texto originalmente publicado em https://www.metodista.br/revistas/revistas-metodista/index.php/ER/article/view/2460/2554, compilado por Marcel Franco da Silva, em 11 ago 2011.

1 Aqui vale ressalvar que reconhecemos o valor da resistência ao saber científico estabelecido, desde que essa atitude possa ser trabalhada como fator de suspeita, capaz de indicar caminhos de refutação de algumas generalizações das teorias em vigor, principalmente no campo complexo das ciências humanas. Todavia, atitudes dogmáticas, fechadas à descoberta de novos conhecimentos, não parecem trazer contribuição para o avanço das ciências.

2 A Bíblia anotada de Scofield (BÍBLIA, 1983) é uma versão do texto sagrado, com introduções aos livros e notas de rodapé elaboradas por Cyrus I. Scofield (1843-1921) e publicada, pela primeira vez, em 1909, nos Estados Unidos da América. O principal destaque das anotações e comentários de Scofield deu origem à teoria das dispensações, que ele foi buscar em John N. Darby (1800-1882), fundador da Igreja dos Irmãos, nascida do movimento denominado Irmãos de Plymouth.

3 Essa forma banalizada de grupos religiosos tratarem o outro, o diferente, como possesso de demônios, inspirou a pesquisa de dissertação de mestrado de Ivo Pedro Oro, que resultou em livro publicado pela Paulus (ORO, 1997).

4 O autor é uruguaio, graduado em teologia adventista e mestre em Ciências da Religião pela Umesp. Em sua auto-apresentação, indica uma longa convivência com a Igreja Adventista: “Foram nove anos de internato em colégios adventistas no Uruguai (quatro anos), na Argentina (três anos) e no Brasil (um ano), preparando-me para o pastorado. Depois foram mais de duas décadas exercendo a atividade pastoral na Missão Baixo Amazonas e na antiga Associação Paulista”.

5 Livro disponível na internet, que resultou da dissertação de mestrado desse cientista da religião, defendida em 1988, na Umesp.

6  Estudo nesse sentido encontra-se em: SILVA PEREIRA, Edegard. Persuasão numa Revista Religiosa. Simpósio, ASTE, p. 116-133, dez. 1982. (Informação fornecida pelo próprio autor).

7 PANNIKAR, R. Intra-religious dialogue. New York: Paulist, 1999 (apud GIL FILHO, 2005).

Referências

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BAPTISTA, Saulo de Tarso Cerqueira. Fundamentalismo como ideologia: a Igreja Batista Regular no Brasil. 2000. 136 f. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado e Licenciatura em Ciências Sociais) – Universidade Federal do Pará, Belém, 2000.

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Anotações do Dr. Scofield. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1983. Tradução de The Scofield Reference Bible. New York: Oxford University Press, 1945.

DURKHEIM, Émile. O problema religioso e a dualidade da natureza humana. Religião e Sociedade: Revista do Iser, Rio de Janeiro, n. 2, p. 1-27, nov. 1977.

GIL FILHO, Sylvio Fausto. O ensino religioso nas escolas públicas do Brasil: discurso e poder frente ao pluralismo religioso. 2005. Disponível em: <http://br.monografias.com/trabalhos917/religioso-escolas-poder/religioso-escolas-poder2.shtml>. Acesso em: 15 fev. 2011.

HERNÁNDEZ, Fernando. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

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TIPOS de conhecimento em filosofia. Disponível em: <http://www.scribd.com/doc/13500458/tipos-de-conhecimento-em-filosofia>. Acesso em: 17 fev. 2011.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Artigo sobre experiência religiosa

DE CATÓLICO A CANDOMBLECISTA: Relatos experienciais de um religioso*

Marcel Franco da Silva**

Considerações Iniciais

Por que e para quê existimos? É na tentativa de dar conta dessa questão que o ser humano é motivado a procurar uma noção de existência, um acabamento axiológico para sustentação dos seus valores individuais. Essa inquietante pergunta jamais saciada, invariavelmente recai sobre o seio das religiões, pois toda experiência religiosa visa dar significados aos fatos que ocorrem em nossas vidas e, direta ou indiretamente, o homem encontra-se inscrito no espaço do Transcendente.

Por essa razão, tenho tentado compreender minha vida para além dos limites da realidade concreta, adentrando na dimensão do sagrado, buscando sentidos que me mostrem que “a vida não é só isso que se vê, é um pouco mais”, como diria Paulinho da Viola, e que o sonho, os projetos de vida, são coisas que desejamos na realidade concreta, mas que, primeiramente, atravessam uma realidade transcendente buscando concretude, o que eu chamo de realização de uma graça por meio do divino.

Minha experiência enquanto homo religiosus começa por volta de mil novecentos e noventa e uns... Não sei precisar o ano exato em que eu cogitava em me tornar um sacerdote católico, mas lembro bem que tinha esse desejo quando criança. Eu me deslumbrava com aquelas figuras cheia de panos no corpo, cruzes enormes, em cima dum altar, falando com propriedade sobre um homem famoso nascido há mais de dois mil anos no Oriente.

Lembro-me de uma vez, na casa do meu avô paterno, provavelmente numa ocasião festiva, que me perguntavam sobre o que queria ser quando crescesse. Para satisfazer os anseios de curiosos, respondi, ambiciosamente, que eu queria ser Papa. Obviamente que todos riram, mas entendiam que no universo daquela criança encantada ia se definindo um projeto: a vida sacerdotal.

Ainda menino, eu ensaiava, ou melhor, imitava as ações litúrgicas dos padres. Frequentava a missa e prestava bem atenção no que fazia o presbítero e levava um legionário (esses roteiros de leituras, cantos e orações da missa) para casa. Trancava-me no quarto, montava uma mesa, colocava uma cruz de caibro na parede, bolachas redondas e suco de uva sobre um pseudoaltar. Para o ritual ser completo, punha um lençol e uma estola de papel higiênico sobre o corpo e na cabeça ia um travesseiro dúctil de espuma, para que parecesse a mitra do Papa. O público que me  assistia? Ora, era uma cadela de estima nossa, o problema é que ela dormia a “missa” inteira, mas acordava e balançava o rabo sempre na hora da “comunhão”.

Passado esse período pueril e hilário, cheguei aos quinze anos amadurecendo a ideia de ser padre. Daí, comecei a seguir o que chamam de vocação. Aos dezoito, eu já era crismado, engajado em movimento da juventude católica, participava de grupo de coroinhas e frequentava encontros vocacionais no seminário de formação sacerdotal. Agora, o menino que se vestia de lençol para rezar “missa” no quarto, tinha crescido e ser tornado cerimonial e coordenador dos coroinhas na mais famosa igreja de Belém do Pará, a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré. A brincadeira de querer ser padre agora era levada a sério.

Continuei meu caminho rumo ao sacerdócio. Procurei por várias congregações, mas numa parei e “me apaixonei de cara”, como dizem os jovens. A Congregação dos Padres Barnabitas foi a instituição que realmente tinha me fascinado. Fui tomado pelo carisma, pela missão, pela história, enfim, pelo exemplo de vida que deixara a nós o médico e fundador desta ordem, Santo Antonio Maria Zaccaria.

Frequentei muitos encontros vocacionais no Seminário dos Barnabitas, na iminência de um dia deixar a minha casa e me tornar um seminarista desta Ordem que tanto amava. Num dia crucial, na última reunião vocacional do ano, o reitor do seminário chamou para a sua sala um por um dos vocacionados que ali estavam, para comunicar quem havia de ficar ou deixar o seminário.

O reitor me chamou para o gabinete dele, foi breve em palavras, curto e grosso. Disse-me ele que eu estava dispensado do Seminário dos Barnabitas, que podia procurar outras ordens religiosas e que, enquanto ele estivesse na administração daquela casa, eu jamais poderia ingressar ali. Tirano, prepotente, inflexível se mostrava a mim aquele reitorzinho, que não me respondeu o porquê da minha dispensa, ironizando até a minha vocação.

Tão-logo, retirei-me de lá. Com a mão na bagagem e a bagagem na mão, peguei a estrada de volta para casa. O senhor pensa, aquele foi o dia mais negro da minha vida, meu coração estava assim todo esmigalhado. A saída do seminário era como uma marcha fúnebre para o enterro dos meus sonhos, em cada passo que eu dava caia um pouco a minha vida. Eu não sabia o que fazer, estava emocionalmente desequilibrado, de tal modo que   esse episódio propiciou o desenvolvimento de uma doença em mim e que anos mais tarde foi diagnosticada pelo meu psiquiatra como transtorno bipolar. Eu pensava no que eu dizer às pessoas que acreditaram na minha vocação, no que eu iria fazer dali em diante, nossa! Pensei até em me jogar na frente dum caminhão na BR, mas pensei na tristeza de minha mãe se fizesse isso e desisti do suicídio. Confesso que briguei com Deus...

Mas eu fui à luta, repensei minha vida e resolvi procurar outro caminho, mas sem esquecer que, uma vez que se experimenta a vida religiosa,  torna-se impossível se libertar dela. Há muito deixei de ir às missas, de crer no que eu fazia antes, silenciei minhas vontades antigas e saí em busca de um novo sentido para minha existência.

Quando saí do seminário, comecei a fazer juízo de certas moralidades e preceitos católicos cristãos que, a meu ver, não cabiam na minha mentalidade de forma cômoda diante do volume de conhecimentos que fui abstraindo de outras religiões e formas de religiosidade. Foi aí, então, que começava um novo processo de ressignificação da minha vida, por meio da reelaboração da minha concepção religiosa.

Enquanto eu passava pelo meu “desencantamento do mundo”, como diria o sociólogo Weber, fui buscando uma forma de religiosidade que me mostrasse um Ser Supremo que mais correspondesse as minhas necessidades de compreensão e interpretação da vida: eu precisava de “Deus comigo” na realidade concreta, porque eu sempre entendi que a alegoria de Deus no céu não existe, sempre tive Deus comigo numa relação paritária, mesmo. Eu queria uma religião que me mostrasse esse caráter anímico do divino, que mostrasse a alma de Deus (ou Deusa?) nos Cosmos, na natureza, nos fenômenos naturais, nos seres viventes. Nesse tempo que estive observando e avaliando minha religiosidade, entendi que as respostas que eu procurava, sobre as coisas da vida, sobre o porquê de eu não ter sido padre, repousavam no silêncio sagrado que estava do meu lado e eu comecei a escutá-lo e a dar mais valor para aquele silêncio.

E, em silêncio, vendo e ouvindo, saí numa peregrinação pelas religiões disponíveis no meu espaço cotidiano, visando encontrar aquela que fosse condizente com a noção de animismo que eu tinha elaborado a partir de minha experiência empírica e científica. Participei de Igrejas Protestantes Pentecostais, até gostei da forma de vivência delas com o transcendente, mas para mim, assim como no catolicismo, o sagrado vinha para perto, mas logo era posto na condição de Deus-distante.

Era início do século XXI e no meu espaço de convivência muito se falava sobre religiões afro-brasileiras. Eu tinha curiosidade em conhecê-las, mas ainda sofria os resquícios do cristianismo que me ensinaram a satanizar, negar esses cultos, e fora que minha tradição familiar católica expunha preconceito contra os cultos africanos, dizendo que isso era ilusionismo, charlatanismo, coisa do diabo.

Certo dia, meu cunhado me falou que se “tratava” num Pai-de-santo e me perguntou se eu tinha curiosidade de conhecê-lo, se eu queria ir num festejo no terreiro dele. Não pensei duas vezes, aceitei de súbito, mas fui escondido com medo de sofrer represália da minha família. Lembro-me bem que era festa do Caboclo José Tupinambá, a casa estava lotada, tinha muitas imagens de entidades que até então eram estranhas para mim, os sacerdotes estavam paramentados com roupas pomposas, coloridas, colares no pescoço; o lugar estava tomado pelo barulho dos tambores, dos cânticos (alguns numa língua que eu não conhecia) e o povo dançava e rodava no centro do salão. Confesso que tive medo, mas não me deixei intimidar e fiquei assistindo o ritual.

Num dado momento chegou o “dono-da-casa”, o Cabloco José Tupinambá. O pai de santo estava em transe, fumando e bebendo muito. Naquele momento ele estava com o espírito desse índio que tinha forças sobrenaturais. De longe eu fiquei observando a entidade e fiquei imóvel, parecia que alguma coisa me prendia as pernas e um frio me subia na espinha dorsal. Foi uma sensação que eu nunca tinha sentido em toda minha vida. O espírito do José Tupinambá ficou um tempo sobre o Pai-de-santo e foi embora. O povo logo chamava outra entidade, a cabocla Herondina. Veio então outro espírito sobre o corpo do sacerdote, era uma entidade muito simpática e cantava muito. Ela saiu cumprimentando as pessoas e me encontrou num abraço tão forte, mas tão forte que eu desfaleci dos sentidos e senti que algo muito maior que eu me tomava nessa hora. Eu recebia naquele momento o espírito do Seu José Tupinambá, segundo informantes do terreiro.

Foi uma experiência fantástica! Lembro de ter recobrado o juízo dentro do salão e estava leve como uma pluma, naquele momento eu tive a sensação de ter sido tocado por Deus de uma forma diferente daquela que eu sentia na igreja católica; naquele momento Deus havia me tocado e continuava do meu lado, eu sentia sua presença, como sinto até hoje.

Daí, então, eu descobria uma religiosidade que realmente dizia ao meu desejo de viver e ter sempre o sagrado comigo. Procurei conhecer o fundamento religioso daquele culto e nele fui iniciado como filho-de-santo por volta de 2005. Começava, assim, o meu processo de reencantamento do mundo a partir da minha adesão ao Tambor de Mina. Mas não parei por aí, como religioso e estudioso dos cultos afros, fui conhecer em outros segmentos afins, até que um dia fui levado a visitar um terreiro de Candomblé de Angola, que era algo um tanto quanto diferente da Mina e que me fascinou a primeira vista pelos tantos mistérios que apresentava e por mostrar a presença divina nas coisas naturais (numa pedra, numa planta, numa folha etc.), enquanto que a Mina ainda estava muito ligada ao culto de imagens.

Em 2008, eu me engajei no Candomblé de Angola, no Inzó Lua Branca, do Tat‟etu Ângelo Imbiriba, o Falode. Mas, por ser conhecedor dos fundamentos do candomblé, comecei a questionar o orixá que o Pai-de-Santo dizia que era chefe da minha cabeça e, depois de um ano de convivência, deixei a casa do meu Zelador com medo de fazer o “santo” errado. No ano seguinte (em 2010), meu ex-Pai-de-santo veio a óbito e deixei essas questões de santo por resolver, dando prioridade a minha formação profissional.

Agora, como mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, tenho buscado compreender este sistema simbólico e almejo, doravante, aprofundar científico-academicamente a experiência hermenêutica que já experimentei e experimento na vivência do universo religioso dos Tambores de Mina e do candomblé no Estado do Pará. Minha pesquisa é voltada para a compreensão do saber das águas nos terreiros de Mina e espero, com isso, contribuir, para os estudos sobre o fenômeno religioso na Amazônia, bem como solidificar as bases dessa pesquisa na Universidade do Estado do Pará.

Algumas questões éticas vivenciadas no contexto das religiões de matriz africana na Amazônia

Assim como as doutrinas religiosas tradicionais (judaicas, cristãs, islâmicas), as religiões de matriz africana na Amazônia se estruturam em torno de um conjunto de normas, o qual é transmitido por meio da oralidade e deve ser resguardado por seus adeptos; mas também há de se considerar que cada casa de santo se fundamenta a partir de suas próprias normas, podendo, com isso, acatar, reelaborar ou negar àquelas que são mais comuns nos Terreiros. Todavia quero destacar aqui as prescrições que geralmente estão presentes quer seja na Mina, quer seja no Candomblé de Angola.

Enquanto filho-de-santo, tenho observado certos preceitos na constituição dos rituais da Mina. Nos três dias de carnaval e durante a Semana Santa, é proibido tocar tambor, ou melhor, não se podem fazer festejos públicos nos terreiros de Mina, porque, como diria Anaíza Vergolino,

para muitos terreiros de Belém, especialmente os de Mina-Nagô, a sequência de tempo Carnaval/Quaresma representa a passagem de um chamado “período de euforia” (Tempo do Carnaval) para um “período de meditação” (Tempo da Semana Santa). Esse período de ruptura é marcado por muitas interdições rituais, algumas das quais recaem principalmente sobre o calendário. (HENRY, 1987, p. 60).

E, ainda tratando das proibições litúrgicas da Mina-Nagô no tempo da Semana Santa, eu notei a quebra de um tabu alimentar durante na Quinta-feira Santa, conhecida pelos católicos, como Quinta-feira Santa de lava-pés. Nos cultos de Mina é severamente proibido comer caranguejo, porque, segundo a lenda yorubana, o orixá Obaluaiê (semi-deus africano que representa a força da terra e do sol) teria sido devorado por um caranguejo que quase mata o orixá.

Mas na quinta-feira santa, a maioria dos terreiros de Mina oferece um almoço farto aos filhos e pais de santo: é servida uma feijoada de feijão preto, acompanhada por caranguejos cozidos. Todos aqueles que participam desse almoço devem comer caranguejo à vontade, mas com o sentimento de raiva, aplicando muita surra no animal cozido, batendo nele com força. Isso é feito porque nesse dia, em especial, o ato de comer o caranguejo representa o enfrentamento da morte, arriscando a própria vida, já que ele é um animal que anda para trás e que quase mata um dos maiores orixás da religião africana, o Senhor Omolú. Então, comer caranguejo na quinta santa é uma educação da morte, com a morte e para a morte. (IDEM, p. 63-64). Passado esse período, o tabu do caranguejo para os “mineiros” é restabelecido e mantido até a chegada da quinta-feira santa do ano seguinte.

Outro preceito pertinente não só na Mina, mas também nas casas de Candomblé, é que não se podem manter relações sexuais e nem contato com o mundo externo (fora da casa de santo) durante os chamados períodos de recolhimento. Esses períodos de confinamento do médium na casa de santo correspondem ao preparo do indivíduo para execução de atividades religiosas diversas. Por exemplo, uma pessoa que quer ser filho/a de santo na Mina, fica recolhida durante três dias para “fazer o Anjo da Guarda”, ou seja, o pai-de-santo irá assentar a entidade espiritual do aspirante, ensinar os fundamentos básicos do terreiro e começar a desenvolvê-lo para o recebimento dos encantados, que foram pessoas que viveram na terra, mas não passaram pela experiência da morte e foram, assim, levados para o mundo da encantaria.

No candomblé de Angola também tive experiências com novos preceitos, os quais se diferenciavam com aqueles aprendidos no contexto da Mina-Nagô. Seja em qualquer circunstância (ritualística ou não), o filho-de-santo sob hipótese alguma poderá sentar em cadeira ou lugares altos que marquem uma posição elevada ou similar ao assento do pai-de-santo. O pai-de-santo é figura máxima do ritual de Candomblé e as práticas dos filhos-de-santo devem voltar-se como um ato de submissão e respeito ao sacerdote da Casa. Geralmente, eu chegava ao terreiro de meu pai e procurava logo uma poti (um banquinho de 30 a 40 centímetros) ou uma esteira para me assentar, mostrando, com isso, obediência aos preceitos da casa.

Também no candomblé existem tabus alimentares que são seguidos a risca. Eu, por exemplo, como filho de Oxalá velho não devo comer comidas com sal, dendê, pimenta. Tudo isso tem uma fundamentação lendária. Contam que Oxalá viajou até o Reino do Oyó, para visitar seu filho, o Rei Xangô. Durante a peregrinação do velho Oxalá, o seu irmão invejoso, o orixá Exú, perseguiu o Senhor do Pano Branco, tentando fazer com que ele não alcançasse o seu objetivo. Exú por três vezes tentou e enganou Oxalá. Exú se passava por mendigo e pedia ajuda para o velho ajudá-lo a carregar o fardo que trazia nas costas. Quando Oxalá se abaixava para juntar o saco exu jogava algo para macular e zombar do Orixá-maior. Oxalá deixou-se enganar por três vezes e Exú sujou as roupas do seu irmão com um desses elementos pro vez: sal, dendê e carvão. Quanto à proibição da pimenta, ela é estabelecida porque é um alimento de Exú, o que representa uma afronta aos filhos de Oxalá. As roupas vermelhas e pretas também são coisas a serem evitadas pelos que trazem esse orixá, pois são cores propriamente de Exú. Se formos observar cada fundamento dos orixás do panteão africano, veremos que cada um traz um bojo de prescrições a serem seguidos pelos seus respectivos filhos-de-santo, para que se mantenha respeito à entidade sagrada que rege a vida de cada um e para que cada um não venha a desenvolver problemas no plano físico e/ou espiritual ao burlar um interdito ligado ao arquétipo do seu orixá.

Tratando ainda sobre a alimentação em relação com o sagrado nos cultos afro-brasileiros, observei a obrigatoriedade de imolar certos animais, que são práticas sacrificais que me remetem ao Ensaio sobre a dádiva, de Marcel Mauss. Nas obrigações ritualísticas do candomblé geralmente se abate certos tipos de animais para um orixá. Meu caso, por exemplo, se eu for raspar para o meu orixá, deverei ficar enclausurado por 21 diais no Inzó (casa de santo), fazer um ebó (espécie de limpeza), arriar comidas do meu orixá, e, principalmente, imolar animais de cor branca como oferenda ao santo que rege a minha cabeça. Mas, em outras circunstâncias, como pedido de uma graça, restabelecimento de saúde etc, pode-se recorrer ao orixá pedindo-lhe o que se deseja, mas para isso deve ser estabelecida uma troca entre o profano e o sagrado e para mostrar a minha aliança com a divindade que me assiste. Pois, como diria Marcel Mauss, “recusar-se a dar, deixar de convidar ou recusar-se a receber equivale a declarar guerra, é recusar a aliança e a comunhão” (MAUSS, 1974).

Retomando a relação filho e pai-de-santo, quero destacar algumas que considero importante, vigente na própria estrutura do ritual de Angola. Durante as festas de orixás, o ritual inicia a partir de cânticos em Bantu, os quais exaltam e chamam os orixás para incorporação nos filhos e pais-de-santo. De acordo com sistema ritual nunca se canta do maior para o menor orixá, a ordem crescente do panteão africano é entoada na cerimônia, ou seja, primeiro se saúda o Exú, depois Ogum, Oxóssi, os outros orixás masculinos e femininos, até chegar à reverência a Oxalá, que tido como o “Pai-Maior” e o mais importantes de todos. Assim como na liturgia dos cânticos, observa-se a mesma estrutura de ordem crescente nas ações litúrgicas dos que dançam no salão. Primeiro, entram de cabeça abaixada e com o corpo encurvado os filhos-de-santo, depois os pais e mãe-de-santo, sendo que dentre estes o último que entra é o dono (ou a dona) da Casa.

Interessantemente que durante meu vivenciamento no Candomblé, observei que os valores da sociedade fora dos limites do terreiro não têm importância alguma para os valores e para a estruturação dos terreiros de Angola. Ou seja, quero dizer que eu entrei no candomblé com uma formação diferente do meu Pai-de-santo; aquela altura eu estava quase me graduando na Universidade e meu pai devia ter no mínimo concluído um ensino médio e isso, sob hipótese alguma me deu privilégios de gozar um status dentro candomblé, muito pelo contrário, ficou bem estabelecida a minha posição de iniciado e que eu deveria me comportar como tal, numa atitude de submissão e respeito com aquele que tinha um outro conhecimento religioso que eu não tinha e esse conhecimento, e mais os anos de iniciação do meu Pai de santo, que faziam toda a diferença nas relações internas da nossa casa de santo. Dizia meu Pai-de-santo que a pessoa poderia até ser doutora, ter muito poder aquisitivo, ser famosa, mas que nada disso importaria para nossa religião e que ela deveria sentar na poti, na esteira e obedecer as normas do terreiro se quisesse “fazer o santo”.

Algumas considerações

O trânsito de uma religião para outra, por mais semelhantes que elas se pareçam, é sempre conflituoso e, por vezes, isso demora muito para estabelecer-se de forma harmônica. O contraste entre valores das religiões é um constante debate na mentalidade do indivíduo que vem de uma tradição religiosa, mas, estando insatisfeito com esta, tenta negá-la e procura uma religiosidade que corresponda ao conjunto de valores reelaborados a partir do desencantamento religioso que teve com a instituição anterior.

Isso me faz retomar sobre a experiência religiosa que tive no catolicismo, porque muitas vezes questionei no âmbito do terreiro, quer seja da Mina, que seja do Angola, a ausência de uma espiritualidade, de uma prática de oração introspectiva, que ficassem fixadas no ritual do terreiro; pensava que as orações rotineiras poderiam assegurar o lugar do sagrado como sagrado, mas, infelizmente, esse caráter normativo cristão não cabia nesse novo espaço que ora era profano, ora era sagrado e ficava difícil, então, o estabelecimento das ideias que eu tinha, baseada nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. Então a tarefa agora era compreender o valor do outro, desse novo outro que me convidava a comungar do seu universo religioso.

A partir dos conceitos sobre polifonia do meu “pai” Bakhtin (2006), passei a entender que eu estava inscrito num conjunto de culturas, ou seja, notei que as ideias de “junção, fusão e mistura” (FERRETTI, 1995, p. 91) são sentidos mais comuns observáveis no contexto sincrético das religiões em Belém do Pará, muito embora eu tenha lutado para aceitar este fenômeno, mas a verdade é ele “existe em todas as religiões, (...), quer gostemos ou não.” (IDEM).

Durante minha passagem da Igreja Católica até o culto Afro-brasileiro, notei que algo mais comum ficou de resistência, o monoteísmo, a crença de um único Ser Supremo. Se para os católicos ele é chamado de Deus, para os mineiros ele é apresentado como Olorum e para os angoleiros ele tem o nome de Nzambi Npongu. A diferença é que para as religiões de matriz africanas quem criou o mundo foram as forças da natureza, que são os orixás criados pelo supremo Olurum ou Zambi, como queiram; ao passo que para os católicos um único ser teria sido responsável pela criação de tudo. O que vejo nessas religiões que experimentei é uma abordagem diferenciada sobre um mesmo fenômeno religioso (o monoteísmo), como a noção/função do Ser Supremo que apresentei anteriormente.

Acredito que os sentidos da minha pertença religiosa não estão somente no espaço interno dela, mas nos espaços das outras religiões que coexistem com ela. Quando observo os sistemas de trocas e de valores entre as religiões, eu me sinto conduzido à busca de um elemento primordial que elas têm em comum, embora cada uma compreenda a partir de suas próprias doutrinas filosóficas.

Bibliografia

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

FERRETTI, Sérgio. Repensando o sincretismo: estudo sobre a Casa das Minas. São Paulo: EDUSP/FAPEMA, 1995.

HENRY, Anaíza Vergolino. A Semana Santa nos Terreiros: um estudo do sincretismo religioso em Belém do Pará. In: Revista “Religião e Sociedade”, 14/3, 1987.

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a Dádiva. São Paulo: EPU, 1974.

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* Artigo apresentado sob forma de palestra aos graduandos de Ciências da Religião – PAFOR/UEPA, no dia 14/07/2011, na Sala de Conferências da referida IES.
** Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, da Universidade do Estado do Pará. Agosto/2011.